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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Cultura



Esse artigo quem mandou em contribuição para o Blog foi o 
Jose Brasil Filho. 
Maravilha, vale a pena ler, assino em baixo.

O poder transformador da Cultura



HERBERT DE SOUZA





      Primeiro tocou a orquestra. Depois, as cortinas se abriram e comecei a cantar. Tinha nas mãos a letra de “Apesar de você”, hino de resistência à ditadura que, em algum momento, todos nós tínhamos cantado nas ruas, nas praças, nos bares, nas esquinas. Difícil mesmo era entender, sob os holofotes do Teatro Municipal e à luz da razão, a emoção de estar ali.
     Na coxia, mais de 500 artistas se preparavam para entrar em cena e, fosse por música, canto, dança, teatro, começar a mudar no imaginário, na fantasia, na criança. Mudar no faz-de-conta, no palco, na loucura. Mas quanto há de loucura em querer mudar este país?
     Durante as cinco horas de espetáculo que se seguiram, mudar se provou possível. Transformar na fantasia é o primeiro passo para transformar na realidade, é provar que recriar o Brasil é preciso e possível. Em cada cena, a arte emocionava, fazia rir, chorar. E cada um de nós, espectadores da imaginação alheia, nos encantávamos com um espetáculo que, além de todas as suas proezas, nos mostrava o quanto pode o mundo da cultura.
     Estávamos em meados de maio quando, numa primeira reunião no restaurante do Teatro Municipal, cerca de trinta significativos representantes de todas as áreas aceitaram o desafio. Fazer arte contra a fome, fazer arte a partir da fome, fazer fome virar arte. Carregava então a mesma convicção que me move ainda. A de que um país muda pela sua cultura, não pela sua economia, nem pela política, nem pela ciência.
     Aos poucos os artistas começaram a se organizar, discutir, divergir, construir e reconstruir idéias, vontades, desejos, sonhos. Foram meses de dedicação. Mas, mais importante do que o tempo entregue a cada discussão, foi dedicar cada arte, cada gesto, cada tom, cada som ao outro, à solidariedade. O gesto de dar, de entregar, de somar. Não apenas exibir, mas doar e oferecer.
     A cultura está entre nós, sempre. É no campo da consciência que o mundo se faz ou se desfaz, é nesse universo da imagem, do som, da ação, da idéia. Tudo se resolve na criação. É na invenção que o tempo volta atrás e o atrás vai para frente. É onde o homem vira bicho, bicho conversa com gente. É onde eu sou Guimarães, você é Rosa. É onde fica como dantes ou tudo muda num átimo. É onde você se entrega de mãos amarradas ou se rebela de faca no dente. É onde o silêncio vira pedra ou o grito rompe tudo e esparrama vida por todos os poros. E onde o risco chora e o choro é o começo da cura.
     Foi o mundo da cultura que primeiro aceitou o desafio de mudar. De criar um outro Brasil. Sem pobreza e sem a arrogância dos ricos. Sem miséria, definitivamente. Um Brasil totalmente simples, mas radicalmente humano. Um Brasil onde todos comam todos os dias, trabalhem, ganhem salários, voltem para casa e possam rir, beijar a mulher que ama, a filha que emociona, abraçar o amigo da esquina, se ver no espelho sem chorar pelo que não realizou.
     Esta mudança começou a ser feita. Com tons, imagens, ação, idéias, emoções. Esta mudança começou a ser feita com gente. E gente é, antes de tudo, cultura. Caldo de gente é cultura. Sumo de gente é esta parte divina que cada diabo carrega dentro de si. O mundo imaginário é onde, do duelo entre Deus e o diabo, não é possível prever o resultado. E é pela brecha da cultura que podemos dar o salto para o reencontro do país com a sua cara. Buscar o que é grande em cada um, buscar a possibilidade de fazer a felicidade o pão nosso de cada dia. É esta a vida e a nossa busca. É esta a fome e a nossa morte. 
A cultura apareceu para construir no campo arrasado, para levantar do chão tudo que foi deitado. E descobrir enquanto é tempo, que o importante é ser cidadão, é ser gente. O que importa é alimentar gente, educar gente, empregar gente. História é gente. Brasil é gente. E descobrir e reinventar gente é a grande obra da cultura. Uma obra que será nossa. Será porque a cultura continua a pensar, discutir, reunir, transformar. A arte sabe e quer fazer mais, muito mais. A arte tem poder de transformar, nem que seja primeiro na ficção, na imaginação.
     Terminado o espetáculo, de volta aos bastidores, o mundo da cultura está desafiado a continuar pensando, fazendo, mexendo, revolucionando. Até aqui, foi grande. Mas o grito deve ecoar sem parar, o gesto feito deve continuar, entrelaçando ações, abraçando em solidariedade. Uma nova consciência deve criar o mundo novo e enterrar a miséria e a exclusão para sempre. Uma cultura que busque no fim de cada atalho uma reta. Que busque em cada ponta de sofrimento uma alegria. Que busque em cada despedida o reencontro. O Brasil está aí para ser criado, recriado. Esta criação apenas começou. E a ação de recriar é a nossa cultura.


Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 20/09/1993, e republicado no livro “Ética e Cidadania” [Carla Rodrigues e Herbert de Souza. São Paulo: Moderna, 1994, Coleção Polêmica, p. 16-18]



José Brasil Filho
Mestre em Educação Brasileira-UFC
Diretor da Escola de Música de Sobral/Ce

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Reflexões

E a Arte, Como Fica?





Recebo muitos e-mails, leio blogs e me preocupo. É inegável o valor desse instrumento que caiu em nossas mãos, a internet. As teorias conspiratórias, as formulas mágicas para saúde e para vida são muitas e sempre me dão muito trabalho no sentido de separar o joio do trigo. É evidente que não dá para acreditar em tudo que se lê (alguns e-mails e postagens seriam apenas exagerados se não fossem irresponsáveis). Mas tudo bem, cada um pensa e escreve o que quer e como quer, mas acredito que alguns assuntos mereciam serem tratados com mais cuidado. Esse é o ponto em que eu queria chegar
Às vezes eu sou um crítico, e a maioria das vezes ainda, um crítico decepcionado, mas sempre esperançoso por mudanças. Constato que estamos vivendo um momento em que é quase impossível, a tarefa de separar a verdade da mentira, o bem do mal, o bom do ruim e até a beleza da feiura.  É lamentável o fato de quase não contarmos com fontes e referências seguras e de que, se você não tiver um mínimo de informação e bom senso, estará condenado à danação eterna. É triste não poder confiar no jornal que você lê, na TV que você assiste, nos seus representantes políticos, no seu patrão, na internet que você consulta, na propaganda que te empurram, no rádio que você escuta, nas fotos que você vê e nos e-mails que você lê. Isso tudo gera em mim um grau de ansiedade e confusão consideráveis, e acredito que noutras pessoas também. Fico preocupado e sem esperança, quando sei que tem gente que acredita em tudo ou em quase tudo que lê e vê.

Certezas hoje em dia, só se têm algumas, muita das vezes, só as sobre você mesmo. Em relação à história oficial é preciso muito cuidado antes de se afirmar alguma coisa categoricamente. O passado é duvidoso, o presente pode não ser verdadeiro e do futuro eu tenho até medo de falar. Se esse estado de coisas reflete e orienta o comportamento das pessoas, é evidente que reflete e orienta a arte que produzimos e a que consumimos.

A pergunta é: Como os artistas de hoje entendem e refletem o mundo? Qual seria o papel da arte nesse momento. Diante deste estado de coisas, qual seria a sua função?  ...  Seria a reflexão?  O entretenimento? A catequização?... Qual? Falando de teatro e cinema especificamente, áreas  mais afins comigo e fazendo uma análise rápida do que é feito hoje, percebo que grande parte da produção, não toda, mas pelo menos uns noventa por cento, anda fazendo graça (às vezes sem graça) da realidade, com suas tiradas, posturas, tipos e expressões da moda ou ainda, só tentando criar moda mesmo. Não estou falando de comédia, essa tem um valor inquestionável quando é bem feita e é inteligente. Conseguimos falar de assuntos sérios e expor situações absurdas de forma divertida e critica através da comédia. Falo desse humor descartável, caricato, vazio, mal colocado, às vezes grosseiro, às vezes preconceituoso, sem conteúdo, onde o importante é não perder a piada. Outro segmento parte para um discurso existencial, às vezes parecendo profundo e que pretende expor essa ansiedade e confusão do ser humano atual a que me referi, mas na maioria das vezes, o discurso é raso, oportunista, da moda, um discurso que, ao contrario de provocar reflexões sérias,  não se fundamenta no essencial nem descortina a verdade, faz é criar posturas e comportamentos cada vez mais enganosos, equivocados ou mais distantes da realidade ainda e principalmente da simplicidade. Há também as releituras dos clássicos, que por aproximação, tentam entender ou pretendem fazer entender o que estamos vivendo hoje. Algumas poucas, muito bem sucedidas, a maioria, prenha de modernidades que tiram o foco do essencial e que também fazem graça em nome da atualização do texto. Na verdade, temos poucos (mas ainda temos alguns) dramaturgos e roteiristas preocupados ou capazes de fazer uma análise social, política ou existencial séria e correta desse nosso momento, ou então, é a realidade que se transforma tão rápido que torna difícil o ato de fixá-la numa obra, ainda mais com o compromisso que o bom teatro e o cinema tem de ser eterno.
O tempo artístico hoje, o ritmo, a estética, o conteúdo, o bom, parece ser o que a televisão nos impõe e sabemos que ela nivela a inteligência, o bom senso e o bom gosto por baixo. Estamos prestes a não ter e nem saber mais ler o bom Teatro e o bom Cinema, pois temos o péssimo Teleteatro e o igualmente desastrado Tele Cinema.  A televisão é um excelente veículo de comunicação e cultura, poderia ser de arte também, tem o seu formato próprio e uma linguagem específica, é um instrumento notável  e importante,  mas infelizmente tem interferido de forma ruim, até sinistra eu diria, em outras linguagens artísticas. Hoje, ela é só de e para consumo rápido e é preciso que se tenha  um adequado distanciamento para se divertir com ela.
Qual o segmento da arte que foge desse estado de coisa hoje, qual o que pode fugir ou tenta fugir disso? A literatura? O cinema? As artes plásticas? A turma da Mônica?  Olha pessoal, eu também não sei, mas é sempre bom pensar nisso.

Essa postagem foi feita em maio de 2008 no Blog 4 Portas na Mesa, de lá para cá nada mudou, pode ter piorado.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Reflexões


Qual a Cara da Cultura em Sobral?

                       


Entre o Eclipse e a Relatividade
                      

A Cultura em Sobral tem uma cara? Tem uma tendência? Uma vertente?  O Teatro, as Artes Plásticas, o Artesanato, a Culinária, a Dança, a Fotografia Artística, o Áudio Visual, a Musica, enfim, às formas de Arte que são produzidas em Sobral tem alguma  ressonância, aqui ou fora daqui? Difícil responder, difícil também esgotar o assunto em um só encontro.
Em 2011 em uma Oficina que ministrei em Sobral, promovida pelo SESC Secretária da Cultura, intitulada “Arte e Debate”.  Um dos dias foi dedicado a uma reflexão sobre esse tema. Contou com a presença de muita gente ligada a Arte em Sobral, todas as áreas estavam de alguma forma, representadas, menos as Artes Plásticas. Estava lá também o Secretário de Cultura, que foi chamado não pelo cargo, mas por ser a figura reconhecida que é entre nós, como arquiteto e artista. Todos falaram das suas experiências, do carinho e  da vontade de ver Sobral se desenvolvendo também na área Cultural. O tom não era de crítica e sim de reflexão e constatações. Não chegamos a nenhuma conclusão definitiva, era de se esperar, um tema desse não se esgota numa única reunião, proponho continuar com a nossa reflexão. Vamos a algumas das constatações.
Falamos da percepção clara que temos e da importância que Sobral vem adquirindo em outras áreas da vida social e comunitária no cenário brasileiro, notadamente nas duas últimas décadas. Não entendemos porque Sobral, sendo a Sobral importante que achamos e conhecemos, não é citada também como uma referência na área Cultural. Porque Sobral não se torna também, um pólo gerador de cultura de importância no Estado do Ceará. Foi com certo orgulho, mas também com tristeza, que percebemos a quantidade e a qualidade de agentes e valores artísticos que moram e trabalham na cidade, mas vimos também que muitos estão migrando ou já migraram para outros centros e os quantos que conhecíamos, que por um motivo qualquer não estavam presentes... Estão dispersos ou sem pontos de referências, sem um ponto de encontro, sem o seu centro do universo, algum lugar onde a Arte seja discutida, aprendida, estudada e praticada.
As Cias. Permanentes de Teatro e Dança, duramente tentam sobreviver e manter sua produção. Os independentes se fecham em clausura, tentativas e reclames, tentam sozinhos levar adiante os seus sonhos, tentam se superar.
Dá pra perceber e percebemos, que faltam e faltam muito, a iniciativa, a experiência e a formação por grande parte da classe, mas faltam também políticas culturais concretas e continuadas por parte dos órgãos públicos que regem a cultura e que por ela são responsáveis. Não que não realizem Eventos, shows, eles existem e às vezes são grandiosos, (a maioria vinda de fora e que nem sempre deixam frutos ou alimentam a produção local), é claro que essas iniciativas são bem vindas, apenas seria bom que participássemos e produzíssemos também essa festa. Comemoramos também as datas e festas populares, mas falta uma política que garanta a formação, a valorização do artista local e principalmente a continuidade da produção. O resultado disso é que ao longo do tempo, nossa cidade vem perdendo seus talentos, ou por pura desistência, ou para outros centros mais avançados culturalmente do Estado e do País.
Vimos também e vibramos com a área de Musica, que tem dado frutos e rendido belos trabalhos. Os ventos parecem soprar novas esperanças, nesse novo despertar da ECOA, torcemos e estaremos juntos pra que dê certo, achamos que o momento é propicio nesse cenário que se desenha pela frente na Prefeitura. 
Constatamos, é claro e por fim, que nos falta Escolas ou Cursos pensados e continuados, no campo da formação técnica e estética das Artes, seja em Teatro (em todos os seus elementos formativos), como também em Artes Plásticas, Dança, Cinema, Fotografia de Arte, Designer, etc.
Temos consciência que a qualidade é que vai nos trazer a credibilidade e o respeito... E que a qualidade vai se tornar moeda de troca quando formos exigir mais. Acreditamos que a qualidade no trabalho e a continuidade na produção nos valorizam, é o que vai inspirar uma resposta positiva do público e nos dar força para cobrar dos órgãos públicos uma política mais concreta. Em Sobral, sobram espaços físicos e talentos, e faltam, iniciativas da classe e vontade política.
Insistimos que com uma formação Artística adequada, politicas culturais concretas, continuidade de produção, seriedade nos nossos objetivos e principalmente com trabalhos de qualidade, nós, os artistas de Sobral alcançaremos a credibilidade e a valorização necessárias. Portanto vamos ao trabalho, vamos dar opções ao público da cidade, eles não precisam se deslocar, pelo menos nem sempre, para outros centros, para ver e consumir arte de qualidade. Por fim, ninguém verbalizou, mas ficamos com a nítida impressão que a cara de Sobral se mostra de fato, quando o assunto é  a discussão e a disputa política, mas não precisa ser só isso.

Chico Expedito



quarta-feira, 23 de novembro de 2011



Teatro Garagem

No dia 29 de outubro de 2011, no Teatro Garagem em Brasília, foi lançado o livro “A educação pela arte: o caso Garagem”, de Maria Duarte. Infelizmente, por questões de trabalho não pude participar desse momento de encontro e de festa, nem pude rever todas aquelas pessoas, tão importantes para mim e para minha formação. Sinto saudade, até mesmo, dos “inimigos”... Na verdade “inimigos de ocasião”, naquela época, a gente brigava muito na defesa das nossas idéias... “Fazia parte do Show”.
Na mesma noite, aconteceu também o lançamento de um documentário em vídeo e de um catálogo fotográfico intitulado: Teatro Garagem: Celeiro Cultural de Brasília.
“O caso garagem” complementa outro livro da autora, “A educação pela arte: o caso Brasília”, publicado em 1983, agora também relançado.
Os Livros


Esse é o livro sobre o Teatro Garagem.  Brilhante e emocionanteResgate fundamental de um momento importante da cultura Brasiliense. (ver ”minha memória” abaixo)




Esse Livro é oriundo da dissertação de Mestrado em Educação de Maria Duarte. Foi lançado em 1983 e agora relançado, “... ele resgata projetos para áreas da educação e da cultura elaborados, a partir de 1957, para futura Brasília e uma pesquisa histórica sobre o que aconteceu (passados 25 anos), com esses projetos”.
É um livro de fôlego, excepcional e necessário. Tem uma importância incalculável para o resgate do processo educativo e cultural de Brasília. Contemplado com o Prêmio Brasília 25 Anos, foi considerado “obra pioneira e de cunho científico”, conforme parecer da Comissão Julgadora. Tornou-se, leitura obrigatória e fonte de informações para os estudos e pesquisas das futuras gerações de candangos.

A Autora

Foto: Andressa Anholete

Maria de Souza Duarte. Carioca, casada, três filhos e quatro netos. Assistente social, mestre em Educação e pós-graduada em Planejamento da Educação e Administração Cultural. Desde 1970, reside com sua família em Brasília, onde sempre esteve envolvida com pessoas, grupos, instituições e com o desenvolvimento cultural da capital brasileira. Coordenou todo o processo de produção cultural da época em questão, do SESC 913 e Teatro Garagem. E ainda é minha amiga.




Catálogo fotográfico, lançado em comemoração aos 30 anos do Teatro Garagem.
Na ocasião, recolhi algumas manchetes e textos publicados pela imprensa de Brasília.

  
Símbolo da arte e da resistência

Maria Duarte lança livro sobre o Teatro SESC GARAGEM, que desde 1979 estimula a produção cultural em Brasília.

...“O SESC Garagem nasceu da proposta de integrar arte e educação como forma de estimular o questionamento social e político. Maria Duarte lança a proposta para criação de uma casa que se comprometesse com a sensibilização das pessoas. Para ela, a saída é unir arte e educação: “Tenho como básico entender a cultura como tudo o que resulta do pensar e do fazer do homem; a educação como o processo de transmissão da cultura; e a arte como um recurso educacional”.
Assim, o tripé formação-produção- difusão é o que sustenta a cultura. Segundo Maria Duarte, é preciso dar condições para as pessoas produzirem seus próprios trabalhos. E, para isso, é necessário também ter estrutura física para tanto.
Ela diz ainda que os palcos dos teatros abrigaram, desde sua fundação, “a Brasília que pulsa”, que não se calava apesar de submetida à ditadura militar. “O SESC Garagem foi o espaço de democratização e de luta pelo fim de preconceitos”, relembra.
  
Maria de Souza Duarte lança livro sobre a experiência do Teatro Garagem


(Trecho de matéria publicada no Correio Braziliense em 27/10/2011) 





De meados da década de 1970 até o início da década de 1980, o SESC da 913 Sul foi o endereço mais quente da cultura em Brasília. Era lá que se armava uma resistência, a um só tempo, organizada, festiva, anárquica, experimental, polêmica, educativa e reflexiva ao sufoco do regime militar. Por lá, nasceram, cresceram ou passaram Os Melhores do Mundo, Vidas Erradas, Asdrúbal Trouxe o Trombone, Chico Expedito, Chacal, Nicolas Behr, o Teatro Oficina (de Zé Celso Martinez Corrêa), Hugo Rodas, Humberto Pedrancini, Jorge Mautner, Jards Macalé, Alceu Valença, o projeto Cabeças, o movimento de cineclubes e TT Catalão. Se a resistência política era alegre, as festas também se tornavam acontecimentos políticos. É essa história que a pesquisadora Maria de Souza Duarte reconstitui no livro duplo Arte educação: o caso Brasília e Arte educação: o caso Garagem (Ed. UnB), a ser lançado no sábado, às 20h, durante a entrega do Prêmio SESC de Teatro.


O caso Brasília é uma reedição do livro escrito a partir de uma dissertação de mestrado defendida na Universidade de Brasília. Durante o lançamento, será exibido um documentário sobre o Teatro Garagem, com depoimentos de 77 pessoas que participaram da experiência, e apresentado um catálogo de fotos produzido pelo designer Hugo Rocha. Maria Duarte dirigiu o SESC da 913 Sul de 1970 a 1982 e, ao ser homenageada em 2009, recebeu o convite para escrever a história do reduto da cultura brasiliense daquele período. “Resolvi acoplar os dois livros porque a experiência do Teatro Garagem foi de educação pela arte, inspirada pelos mesmos princípios de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, que nortearam o sistema de ensino nos tempos pioneiros de Brasília”, justifica. A história de O caso Brasília cobre o período de 1957 a 1982, e a de O caso Garagem avança de 1970 até 2000.


O SESC da 913 Sul foi um espaço importante pela capacidade de articulação, ousadia e compromisso com a questão cultural de Brasília. 



minha memória

Como disse a Zezé Cunha, em algum momento do seu depoimento... “A gente era feliz e sabia”. Belo e rico momento das nossas vidas, a experiência do Garagem e do SESC 913.  Aquela equipe tomou para si a responsabilidade de encabeçar e encaminhar o processo cultural de toda uma cidade, isso nos anos ainda difíceis, no final da década de 70 e começo da de 80. E não era uma cidade qualquer... Era a Capital da República.
É preciso que se diga que aquela equipe, teve o privilégio de trabalhar e conviver com uma cabeça iluminada e abençoada... Maria Duarte estava lá, para coordenar e colocar alguma ordem no caos, para objetivar e dar sentido a toda aquela loucura, a toda aquela energia e emoções de bichos soltos.
Humberto Pedrancini definiu bem àquele momento... “A gente estava somente ocupando os espaços...” De fato, a gente ia fazendo e ocupando os espaços que víamos como possíveis, respondendo quase sempre a uma provocação da Maria, ou alguma provocação externa que nos incomodava... Da minha parte, os objetivos eram imediatos, não pensava em nada como um processo, não tinha nenhum fim especifico, ou objetivo em longo prazo muito claro na cabeça, simplesmente ia fazendo... Mas sempre, com a certeza absoluta de que aquilo era necessário, acertando e errando, mas principalmente aprendendo muito.
Artes Plásticas, Musica, Artes Cênicas, Laser, Educação Física, Gastronomia, Cenotecnica, Artes Marciais, Cinema... “Tudo junto e misturado”, como alguém falou. Fomos pioneiros em Brasília, assistindo, dando guarita e dando o devido valor às demandas da sociedade, como o movimento negro, a causa feminina, o movimento Gay, a terceira idade... E acabamos por construir um ícone da cidade, o Teatro Garagem, que já fez 32 anos em uma cidade de 50... É pura história e está lá para nos lembrar que as mudanças são possíveis. Isso tudo, em uma Instituição, na época, considerada “careta”, o que era fato. Mas aí entrava, de novo, o talento da Maria Duarte, capaz de nos representar, defender, justificar e aparar todas as arestas provocadas pelas nossas ações junto à “Instituição SESC”.
Tudo isso, toda essa historia está brilhantemente contada no livro, “A educação pela arte - o Caso Garagem”. Agora com a devida distancia, a autora coloca para nós, que estávamos lá e para o público em geral com clareza e simplicidade impressionantes, a importância daquela época e daquele trabalho para a nossa formação e para o processo cultural da cidade que seguiu influenciada pelas nossas ações. Não sei se hoje, as novas gerações, tem uma idéia clara dessas boas influências que tiveram do  passado... As coisas mudaram, a época é outra, tudo é mais burocrático, compartimentalizado, desfragmentado, personalizado, descaracterizado, pasteurizado, etc. Nós artistas, não somos independentes (talvez nunca tenhamos sido, todas as vezes que tentamos, fomos isolados). Os projetos obedecem a regras muito rígidas e nós nos submetemos a elas, a cultura já nasce engessada desde os editais de financiamento, e continuamos a depender deles... Temos que continuar o trabalho, é a nossa profissão e nossa sina. Hoje, para piorar tudo, vivemos a “cultura das celebridades”, que emburrece e nivela tudo por baixo. Só os escolhidos da mídia, tem algum valor de escambo. A arte, parece, deixou de exercer a sua função principal, que é a do encontro, da identificação entre os seres, da pesquisa, da descoberta, do coletivo, de quando o processo às vezes, era mais importante que o resultado, agora tudo é muito personalista... Trocou-se o debate com os artistas, pelo “culto” aos artistas, é estranho.  “Não sei... Só sei que é assim”... Aquela época foi determinante para minha geração, para o meu Grupo Katharsis, para meus companheiros de sempre, Marisa Castro, Graça Veloso, Sergio Vianna e outros...  Tenho a convicção de que fizemos a nossa parte (não só os citados, mas todos os envolvidos) e na hora em que precisava ser feita. Para mim, aquele momento deu sentido, objetivou e reafirmou minhas convicções para o trabalho de toda vida, eu continuo brigando e muitas vezes, ainda pelas mesmas coisas (daí minha opção de fazer teatro longe dos grandes centros). Valeu à pena ter vivido Brasília naquela época.
Para fechar com brilhantismo o evento do dia 29, e para lembrarmos todas as caras e todas as emoções, o SESC aproveita e lança um belo catálogo fotográfico em comemoração aos 30 anos do Garagem, o catalogo consegue ilustrar bem aquele  momento.
Acho da maior importância o resgate proporcionado por esse trabalho, como o é também o de outras obras já publicadas em Brasília, focando outros momentos e outras experiências daquela época. De minha parte, tenho o maior orgulho de ter participado daquilo tudo.

Chico Expedito – Rio/novembro/2011

Fotos


Quando ainda era uma garagem vazia


Inauguração – Humberto Pedrancini, Chico Expedito, Maria Duarte, Bené Setenta, Xavier e Nivaldo Ramos


Inauguração 

                   

                  



O Teatro Garagem hoje